• Gisela de Oliveira Gusmão

Divorciados sob o mesmo teto: reféns do medo.



Você está dividindo a casa com um abusador ou uma abusadora?

Você não tem um sofá, uma cama, um ambiente privativo onde deitar e chorar a sua dor? Você não encontra um momento só seu para refletir sobre os seus problemas? Você vive com medo de falar até mesmo ao telefone?

A casa é o nosso refúgio. Portanto, quando o lar se torna o ambiente da opressão e da violência, a pessoa vai se encolhendo em si mesma e tende a apresentar um nível de desvitalização importante, que muitas vezes inviabiliza ações e tomadas de decisão, desviando o foco das questões práticas.


É possível uma separação amigável?

Vejam, “amigável” é uma expressão desconhecida para esse tipo de cônjuge. Prepare-se para contratar um excelente advogado e um psicólogo com formação e experiência na área de família e manejo de separações para te dar suporte. Em muitos casos esses profissionais serão os seus melhores amigos, e, talvez os únicos durante muitos meses de batalha. Pois, uma estratégia comum utilizada pelos cônjuges abusivos é manipular amigos e familiares das suas vítimas para que estas, não recebam apoio e sintam-se isoladas. Desta forma, na imaginação deles, não restará nada além de desistir da separação.

Esqueça a possiblidade de sensibilizar o seu algoz. Para esse companheiro ou companheira, a responsabilidade de tudo o que não saiu como esperado na relação é unicamente do outro. A culpa será sempre da vítima.

Processos de divórcio envolvendo pessoas abusivas costumam ser longos e exaustivos. Normalmente envolvem muito sofrimento, pois esses indivíduos, podem se enquadrar num perfil compatível com o de narcisistas ou psicopatas. Portanto, os recursos que utilizam serão movimentados principalmente pelo sentimento de vingança e pelo desejo de aniquilação do companheiro ou companheira, pois não aceitam serem confrontados.


A angústia e o medo estão te paralisando?

Diante dessas emoções tão desconfortáveis, é importante colocar os pés bem firmes no chão e tratar das coisas práticas. Por exemplo: Não me parece uma boa ideia iniciar um processo de divórcio, nesse contexto, sem um plano que inclua desde reserva financeira, até conversas com amigos ou familiares que possam te apoiar e te receber por um tempo.

É importante também, considerar a possibilidade de buscar o amparo legal para garantir a sua integridade, bem como a dos filhos. Não se trata de um divórcio qualquer, mas da decisão de romper com um ciclo de violência que pode ganhar força durante a pandemia. A Lei 11.340/06, conhecida como “Lei Maria da Penha”, tem sido aplicada para proteger os homens, que ao contrário do que o senso comum pensa, são também, vítimas de violência doméstica, ainda que sejam poucos, comparado às mulheres. Estatisticamente, nesses casos, os números parecem ínfimos, porque normalmente, os homens evitam esse tipo de exposição por vergonha.

As vítimas desse tipo de cônjuge vão enfrentar difamações, violência psicológica e física, que normalmente são intensificadas durante o processo de divórcio, além de perdas materiais, pois em muitos casos as vítimas abrem mão dos seus direitos na esperança de se livrarem das perseguições e das ameaças. Mas, pode não funcionar.

Mesmo após o encerramento do processo, não raro, costumam aparecer de tempos em tempos, de forma inusitada, para lembrarem suas vítimas de que as estão observando, e, para convencerem a si próprios de que ainda estão no controle, podendo ligar e desligar a qualquer tempo o botão da alegria daquele a quem elegeu como seu alvo.


Já não é a primeira vez que você vive relacionamentos abusivos? Dizem que você tem o “dedinho podre”?

Eu diria que não. Mas, talvez você tenha o perfil que eles procuram. Uma pessoa com autoestima baixa, com carências profundas, insegura, depressiva, resignada, que necessita agradar o tempo todo, e que se culpabiliza demasiadamente.


Como deixar de ser uma vítima potencial?

O caminho sem dúvida é superar suas questões internas, por meio de um autoconhecimento profundo, capaz de evidenciar as suas potencialidades e competências, aprimorando a percepção a respeito de si e fazendo brotar o amor próprio. Quanto mais sadia emocionalmente é uma pessoa, maiores serão as chances de se envolver em relacionamentos mais equilibrados e felizes. Não se culpem por não terem percebido certos sinais, pois não se trata de uma escolha consciente, como explica a Psicóloga e Antropóloga Maria Luiza Dias Garcia no livro “A violência Doméstica e a Cultura da Paz”:

Se o casamento tem motivações que a nossa consciência desconhece, partimos do pressuposto de que a eleição do parceiro amoroso nunca é aleatória, mas promovida por certo encaixe das personalidades, em seus aspectos bons de reciprocidade e promoção de interessante intercâmbio, como também nos aspectos de dificuldades que ambos os parceiros carregam por resolver. Por consequência, a união conjugal expõe processos ininteligíveis a um primeiro olhar. (SEIXAS;DIAS, 2013 p. 63)


Te parece impossível fazer essa transformação?

No momento, talvez não seja fácil... Mas, com o acompanhamento psicológico, passo a passo você encontrará ferramentas para viver esse lindo processo de reconstrução de si e da própria vida, retomando seus projetos e alcançando seus objetivos.


Onde mulheres que sofrem violência (física, psicológica e sexual) podem obter ajuda?

O TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo) oferece um canal de atendimento que ajuda as vítimas de violência doméstica e necessitam de informações e orientações antes de tomarem uma decisão. O canal faz parte do projeto chamado “Carta de Mulheres”, e basta que a vítima ou àqueles que desejam ajudá-la, acessarem o formulário on-line www.tjsp.jus.br/cartademulheres, preencherem os campos e aguardarem orientações de uma equipe especializada.

Consulte também o manual da agência Brasil https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2020-05/agencia-brasil-explica-onde-mulheres-agredidas-podem-encontrar para encontrar muitas informações e também os locais de atendimento.

No caso dos homens agredidos, devem realizar os procedimentos legais para a sua proteção. Eu não encontrei grupos de apoio para homens. Caso algum dos leitores tiver essa informação, peço a a gentileza de escreverem para contato@psiqi.com.br para que eu possa incluir aqui e nos demais canais.


Gisela Gusmão é psicóloga, psicoterapeuta de casal e família. Atua, portanto, em temas correlatos, tais como: luto, sexualidade, dependência química, criança e adolescente.

Tel: (+55 11) 98119-1906

Whatsapp: (+5511) 98796-0922

Email: contato@psiqi.com.br

Site: www.psiqi.com.br

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